A crise na educação

A educação no Brasil caminha na contramão da evolução. A frase "o mundo mudou" mantém-se na ordem do discurso e da propaganda, mas a escola brasileira não se preocupa em olhar para as suas práticas e identificar em que medida a força do significado dessa fala impacta e demanda que ela também se torne um motor de mudança.

A idéia de que a escola é um “depósito de crianças” nasceu após o movimento de emancipação das mulheres, na década de 60. Nesse cenário, foi denunciada a repressão, dominação e discriminação de mulheres, jovens e várias minorias, e a sociedade como um todo, passou a lutar e desestruturar os esquemas que colocavam as mulheres e as minorias fora de vários âmbitos de determinação da sociedade. Essa desestruturação abriu um imenso mercado de trabalho para todos os discriminados, incluindo as próprias mulheres. Esse movimento, além de denunciar a própria sociedade, denunciou também um certo tipo de família que, mesmo sendo o tipo da maioria das famílias, reproduzia a submissão e a exploração das mulheres.

A partir da década de 60, novos tipos de família foram surgindo, um novo mercado de trabalho se abriu para as mulheres e novas exigência de consumo tomaram conta de todas as classes sociais, obrigando os adultos a trabalhar mais. Sendo assim, as crianças passaram a estar mais sozinhas, já que a casa perdeu a presença de adultos durante todo o dia.

Já que as famílias passaram a procurar escolas de uma forma mais intensa, escolas passaram a ser criadas para atender essa demanda. Essa relação de demanda e oferta, que ocorre de forma intensa na década de 70,  espalhou escolas por toda sociedade, como uma lei mecânica do mercado.

Na época, poucos educadores entenderam que a crise da família era a causa do crescimento das instituições escolares e que, receber as crianças de uma família em crise, não resolvia em nada os problemas dessas crianças. Entretanto, naquele momento, o importante para as famílias era ter um lugar onde deixar os filhos e o importante para as escolas era receber esses filhos.

Se formos prestar atenção nesse fenômeno, vamos observar que pequenos detalhes vão revelando o modo como as famílias enxergavam as escolas e o modo como as escolas enxergavam as famílias.

Na década de 70, os pais levavam os filhos nas escolas, entravam com elas na instituição, falavam com os educadores e despediam dos filhos ali, na porta da sala de aula. Com o surgimento da indústria do “transporte escolar” no final do séc. XX, esse ritual acabou.  Os pais não levam os filhos mais na escola porque não têm tempo para isso. O tempo se tornou curto e não mais permite ir nas reuniões com professores, fazer tarefas escolares junto com os filhos, acompanhar os conteúdos, saber efetivamente o que a escola anda realizando. Agora, o mais importante é o trabalho e seus benefícios.

Da mesma forma que as famílias achavam que determinadas coisas eram importantes, as escolas também mudaram o ponto de vista. Achavam que o processo pedagógico era um conhecimento específico da escola e dos seus especialistas e agora começam  a perceber que não. Hoje, defendem que o projeto pedagógico deve ser entendido pelas famílias. As escolas mudaram de opinião porque descobriram que viraram “depósito de crianças”. 

Na medida que os pais foram se afastando das escolas, os educadores descobriram que estava sendo passado para eles a responsabilidade da educação das crianças. Educação completa, incluindo boas maneiras, escovar dentes, pentear cabelo, entre outras coisas. Percebendo isso, os educadores perguntaram “Para que serve a escola?”, “Afinal, o que nós somos, já que não somos pais, mas estamos sendo levados a agir como se fossemos?”.

Estamos vivendo hoje esse momento. A escola diz “vou até aqui”. E as famílias, vendo até onde vai a responsabilidade da escola, se assustam com o tamanho da sua responsabilidade. A escola, porque tem a questão da educação como tema e, principalmente, porque estava vivenciando toda a crise das crianças que perderam o laço familiar, entendeu que terá que tocar a causa de todos os seus  problemas: a família. Sim, os maiores problemas por que passa uma escola hoje (indisciplina, falta de limites, violência, drogas, problemas de aprendizado), são originados na família. A escola até hoje trabalhou com os efeitos, nunca foi na causa. Mas, como trabalha com efeitos, os problemas continuam e pioram.

Portanto as escolas estão vivendo um dilema: ou continuam a tratar com os efeitos e continuam como “depósito de crianças” ou passam a trabalhar a causa dos seus problemas e travam uma nova relação com as famílias.   

Beatriz Chaves