Altas Habilidades na Primeira Infância  

Altas Habilidades na Primeira Infância  

Sempre que falamos sobre altas habilidades na Primeira Infância, a ideia ou a palavra que logo vem à mente é “precocidade”. Como saber se uma criança tem altas habilidades ou se é apenas precoce? Existe alguma vantagem em fazer uma avaliação precocemente ou é importante esperar a criança “amadurecer”?

Não há como pensar sobre altas habilidades em crianças de 0 a 6 anos sem falar de precocidade. E é aí que nos deparamos com algumas questões que têm inquietado pais e professores: qual é a relação entre precocidade e altas habilidades? Como saber se uma criança precoce tem altas habilidades ou se ela apenas executa determinada habilidade em um nível de proficiência incomum para a idade? Precocidade pode ocorrer sem altas habilidades? Características de altas habilidades podem ser notadas desde a mais tenra idade? O que de fato deve alertar os pais para notarem que seu filho é fora da curva? Existe alguma vantagem em fazer uma avaliação precocemente ou é importante esperar a criança “amadurecer”?

Vamos lá! Precocidade é um dos assuntos menos estudados no Brasil. Altas habilidades também. Precocidade é entendida apenas como algo que a criança faz e que está ‘muito adiantado’ para o que se espera das demais crianças, considerando-se um parâmetro de métrica de desenvolvimento. Leva-se em conta, ainda, o campo ou área de domínio no qual está ocorrendo aquela “antecipação” de performance, como, por exemplo, na linguagem, na matemática, na música, nas artes, nos esportes, na alfabetização, entre outros.

Para alguns autores, como Gama (2006), Freeman e Guenther (2000), a precocidade pode não estar diretamente associada ao fenômeno das altas habilidades. Concordamos com eles, porque, sim, há casos em que a precocidade ocorre, por se tratar de habilidades naturais em uma criança que encontrou espaço para expandir-se e seguiu seu fluxo espontâneo de desenvolvimento. Uma criança que vive em um ambiente fomentador de suas descobertas, um ambiente que reconhece sua curiosidade como uma ferramenta de aprendizagem autodidata e no qual a liberdade de expressão é amplamente consentida, pode ocorrer que ela consiga expandir ao máximo suas potencialidades e alcançar patamares inusitados de desenvolvimento, sem necessariamente ter altas habilidades.

No entanto, ao nos depararmos com uma criança entre um e quatro/cinco anos de idade que lê e escreve, que consegue ler palavras em outro idioma, que toca perfeitamente um instrumento musical, crianças que executam o que outras da mesma idade sequer conseguem imitar, tudo isso sem ter recebido nenhuma instrução, é absolutamente plausível estarmos diante de crianças com altas habilidades.

Conceitualmente, crianças precoces são aquelas que apresentam uma habilidade muito específica prematuramente desenvolvida ou em desenvolvimento acelerado, em quaisquer áreas ou subáreas do conhecimento ou da atividade humana e que não são comuns em crianças da mesma faixa etária. Elas podem apresentar precocidade também no desenvolvimento de habilidades próprias do desenvolvimento infantil, como andar, correr, falar, entre outras. Porém, essas características e comportamentos também podem ser identificados como altas habilidades.

Como perceber a diferença? A literatura indica que se essa habilidade desaparecer no decorrer do desenvolvimento da criança, a precocidade da qual estamos falando não está relacionada às altas habilidades. Significa que, em determinada idade, crianças precoces podem deixar de se destacar e passar a demonstrar suas habilidades em níveis idênticos ao de seus pares (crianças da mesma faixa etária). Por outro lado, todas as crianças, adolescentes, jovens e adultos identificados com altas habilidades, revelaram níveis notáveis de precocidade na primeira infância. Podemos perceber que não existem elementos determinantes e que, por isso, estamos diante de um fenômeno bastante complexo e que requer cuidados especiais e abordagens especializadas.

Crianças precoces, especificamente as que se encontram na primeira infância, podem ser altamente prejudicadas por falta de conhecimento, abordagens superficiais, mitos e visões estereotipadas. Por isso, a importância de olharmos com muito cuidado para cada uma em particular, e, de modo personalizado, observar, registrar e comparar suas características, considerando-as além daquelas que a literatura ou mesmo o senso comum apontam como presentes em crianças com altas habilidades.

Precocidade pode ocorrer sem altas habilidades, mas altas habilidades é um fenômeno que não ocorre sem precocidade. O que acontece é a criança passar despercebida pela fase da primeira infância e sofrer prejuízos de ordem emocional nas fases subsequentes.

Fique atento! Vários dos comportamentos que vou listar aqui podem ser observados em seu filho na primeira infância, e denotam fortes indícios de precocidade vinculada ao potencial para altas habilidades:

  • Dificuldade de ser aceito no grupo de crianças de sua faixa etária;

  • A sociabilidade;

  • A independência e/ou autonomia, desde bebê;

  • Interesses variados e bastante diferenciados para uma criança tão nova;

  • Idealismo, altos níveis de sensibilidade, senso de justiça e desenvolvimento moral fora do padrão;

  • Questionador ou desafiador de regras e autoridade;

  • Alta motivação para determinadas atividades;

  • Impulsividade;

  • Um modo obsessivo com que seu filho se prende a determinado interesse, que pode ser por letras ou números. Posteriormente, por volta dos 5 anos, saber sobre o universo ou algo totalmente excêntrico para a idade;

  • Individualismo, recusando-se a dividir brinquedos com outra criança;

  • Não aceitar que um coleguinha o acompanhe em alguma atividade;

  • Irritabilidade ao ponto de gerar descontrole emocional, porque não consegue resistir aos impulsos de suas emoções e acaba caindo no choro compulsivo, agredindo ou exaltando-se com os pais, os irmãos ou colegas na escola;

  • Chamar a atenção, atirando objetos, batendo ou mordendo outras crianças;

  • Irrita-se quando contrariado, porque não pode fazer o que deseja;

  • Irrita-se quando escuta coleguinhas falando coisas erradas;

  • Chega a bater, empurrar, atirar objetos, desrespeitando adultos (pais e professores) toda vez que é contrariado por querer chamar a atenção, por ser obrigado a sentar em grupo, a participar de algo que não gosta ou apenas por querer brincar sozinho;

  • Baixíssima tolerância à frustração, que pode resultar em agressividade;

  • Tendência a corrigir as pessoas, mesmo quando está errado, mas acreditando que está certo.

É urgente desmistificarmos as padronizações e as estereotipias, oferecendo possibilidades mais enriquecedoras, abertas e flexíveis para que os profissionais que atuam na Educação possam adquirir novos conhecimentos acerca desse público.

A dica mais prática que vou te dar é: não perca tempo! Quando o seu filho, de bebê aos seis anos de idade, apresentar comportamentos que, de algum modo chamam a atenção por parecer estranho para a idade em que ele está no momento, procure ajuda para identificar se esses comportamentos estão realmente fora da curva. Esperar a criança “amadurecer” pode levar a prejuízos irreversíveis, grande parte das vezes, se, de fato, forem comportamentos de altas habilidades. Portanto, existem vantagens em buscar uma avaliação precocemente.