Disciplina X Obediência

DISCIPLINA X OBEDIÊNCIA

“Eu digo a ele: “não faça isso!” … ele olha para mim e faz exatamente ‘isso’!”
“Não tenho que dar explicações! Ele tem que me obedecer e pronto!”
Quem nunca passou por essa situação?
O que leva seu filho a parecer ignorar o que você diz?

Grande parte dos pais se preocupa mais do que deveria com o que os outros pensam sobre o seu modo de criar o filho. Ficam tensos, especialmente quando alguém estiver olhando ao discipliná-lo. A primeira tendência costuma ser “provar a outros a sua autoridade de pais”! E costuma ser nesses momentos que pais se mostram mais reativos, duros, impositivos, porque pensam estar sendo julgados em sua posição, quando o filho demonstra confrontá-los. E aí começamos a ter um problema!

Você já parou para pensar que provar a autoridade, conforme aprendemos dos nossos pais e avós, está diretamente relacionado à obediência? E que a palavra obediência está diretamente relacionada à expressão de ordem “tem que...?”

A expressão “tem que”, sem explicação lógica e plausível, exerce o poder de gerar um gatilho instantâneo sobre os impulsos de reatividade da criança. E a sua primeira manifestação é não obedecer!

É importante entendermos que as crianças pensam e agem por instinto, e que reações instintivas de defesa e ataque são próprias do sentido de autopreservação da espécie humana. E a parte do cérebro que regula a habilidade de pensar em consequências do que faz, é uma das últimas a se desenvolver. Portanto, é muito natural a criança ter um ataque de fúria diante de uma ordem dada em forma de “tem que”. Este é um dos mais poderosos gatilhos para acionar um instinto de autodefesa natural na criança.

Escutar uma ordem de forma que não pareça um “ataque” é uma habilidade que depende de uma parte do cérebro da criança que ainda está em formação, e que não está disponível para ela o tempo todo, afirma Daniel Siegel, pesquisador do cérebro infantil, na Universidade da Califórnia.

Pense a respeito das seguintes questões: por que desejo que meu filho siga ordens? É por medo? É para agradar os pais, o diretor, o professor, o coleguinha que falou mais forte para ele fazer alguma coisa e ele não quer perder a “amizade”?

Como seu filho não tem desenvolvidas as funções executivas ou habilidades sociocomportamentais para raciocinar e fazer escolhas adequadas, ou seja, o seu cérebro ainda não está equipado com habilidades para a convivência e a construção de relações sociais, chegamos à linha de risco da obediência! E aí, precisamos pensar no conceito literal de obediência, que significa dependência, submissão, sujeição.

Há riscos para a sua segurança emocional se eles seguirem ordens, por exemplo, para receber recompensa, por medo do julgamento, por medo de punição, por sentir vergonha de uma censura. Eles precisam aprender que, mais importante do que obedecer, é saber POR QUE e A QUEM se está obedecendo! 

Para a formação da criança, obediência associada ao medo de ser punida, de ser ‘castigada por Deus’, porque deixa a mamãe triste, porque vai ganhar um sorvete ou porque “tem que...” ser assim e pronto, gera um adolescente, jovem ou adulto com uma percepção deturpada de três habilidades essenciais para a vida: fazer boas escolhas, tomar decisões acertadas, discernir sobre situações de risco. 

Lembre-se: a “figura de autoridade” que, hoje, para o bem deles, são os pais, e que até merecem obediência servil, fanática, sentimental, por identificação ou, simplesmente, obediência total, pode ser, mais tarde, obediência às regras saudáveis de convivência, mas também pode ser obediência a uma pessoa manipuladora, a uma ideia convincente, a uma doutrina, a um sistema opressor, a uma ideologia e, em grau superior, tornar-se uma predisposição à autodestruição de sua própria identidade e autonomia.

Obediência não muda de significado quando sai da figura de referência dos pais: é o mesmo conceito e efeito em casa, na rua, na comunidade, na sociedade e na vida.

Para que seus filhos se tornem pessoas autônomas, eles precisam seguir determinadas normas, porque acreditam que isso é o melhor para eles e não porque outra pessoa está dizendo que eles “têm que...fazer”. 

Daí vem a diferença entre obediência e disciplina, uma é induzida pelo medo, a outra é desenvolvida pelo empenho e dedicação. Disciplina, que possui a mesma raiz da palavra discípulo e discente, significa ensino, instrução, ciência, educação, sistema, princípios éticos. Disciplina é educação em sentido amplo. A raiz da palavra é disco, que significa aprender, estudar, conhecer, ter conhecimento. 

Dessa forma, essa palavra quer dizer estar apto a aprender. Estar disposto à aprendizagem. Estar em posição de aprender. Estar desejando conhecimento, querer ser educado. Isso é disciplina.  

Faça boas escolhas com relação ao que ensinar para os seus filhos. Disciplina, sim. Obediência, não.


Beatriz ChavesComment