A infância de um Gênio

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Por Paulo Volker

Não é raro identificar nas histórias de grande parte dos gênios, sejam antigos ou contemporâneos, vários episódios de conflito e problemas com a educação formal. Abandono escolar, problemas de disciplina, trocas constante de escolas, castigos e constrangimentos salpicam a história de várias personalidades com reputação tida como genial.

A literatura especializada sobre superdotados estabelece quase como uma lei que, sendo a criança com altas habilidades, então há enorme possibilidade de ter problemas na sua formação escolar. A constatação é meio que óbvia, escolas formais não foram projetadas, pedagógica e operacionalmente, para tratar com uma criança que tenha talento, aptidão, criatividade ou inteligência de forma superlativa. Sendo assim, essas crianças, que possuem uma dinâmica própria, geralmente tendendo para níveis mais elevados que o normal, tendem a demandar muito mais atenção dos adultos, expressam necessidades incomuns e, claro, demonstram as suas altas habilidades sempre para o espanto de todos.

JB aprendeu álgebra com 7 anos, na aula de matemática desafiava o professor e monopolizava, com respostas imediatas ou cheias de detalhes, qualquer pergunta dirigida para a turma. Muitas vezes ia ao quadro para enchê-lo de equações que ninguém entendia. Entretanto, tinha uma enurese sistemática. CK seguia a tendência de fazer do quebra-cabeça o passatempo quotidiano dos dois irmãos mais velhos (15 e 17 anos) e dos pais. Cada um, de acordo com a idade, possuía um ‘puzzle’ da sua preferência, evidentemente de complexidade e detalhe adequados à sua maturidade. Sempre o do pai era o maior e o mais detalhado. Com 4 anos CK já montava todos os ‘puzzles’ da família em questão de horas (o pai nunca fazia o seu em menos de um mês). Mas jogava todas as peças no chão aos gritos se, por um acidente, faltasse uma única peça para completá-lo.

Dois exemplos reais de uma infinita lista de relatos espalhados pela bibliografia especializa ou relatos das instituições com foco nessa questão. O INEP tinha identificado no Brasil 5.637 superdotados em 2009 e em 2014 esse número subiu para 13.308 ! A OMS aponta mais de 10 milhões de superdotados no Brasil e 5% da população mundial. Essas estatísticas sempre vinham acompanhadas de uma percepção de que há uma relação direta entre a identificação precoce das crianças com altas habilidades e uma serie de problemas que essa condição lhes impõe. Da discriminação, isolamento, bullying, passando por problemas de autoestima e relacionamento há uma ideia de que quem é muito inteligente, tem muito talento ou é muito criativo tem, em contrapartida, uma vida infeliz. David Lubinski, da Vanderbilt University, publicou em 2016 o resultado de uma pesquisa que mostra justamente o contrário. No “From Terman to Today: A Century of Findings on Intellectual Precocity”, ele prova que a infância de um gênio, se acompanhada de uma identificação precoce das suas altas habilidades, resulta em adultos realizadores, com imensa capacidade de entregar resultados positivos para a sociedade. Como ele diz “Early insights into the giftedness phenomenon actually foretold what would be scientifically demonstrated 100 years later. Thus, evidence-based conceptualizations quickly moved from viewing intellectually precocious individuals as weak and emotionally labile to highly effective and resilient individuals”.

Hoje é possível dizer que o mundo pleno de volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (o mundo VUCA) precisa, mais do que nunca, de pessoas com altas habilidades. Além de realizar um imenso esforço para desenvolver adultos em direção à exponencialidade e a alta performance, torna-se evidente a necessidade de termos instituições capazes de dar todo o apoio possível para “os novos”, como dizia Hannah Arendt, que já são singularmente exponenciais. O futuro conta com eles.

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